Obsessão e o desejo
POR: Aline Hilário

Qual seria o seu desejo?
Existe uma curiosidade na publicidade: quase todo mundo que trabalha nela começou querendo muita coisa.
Queria criar, escrever, ter uma ideia que alguém lembrasse, queria fazer uma campanha que saísse do briefing e ganhasse o mundo e queria, em algum momento, olhar para uma peça e pensar: “isso aqui tem alguma coisa minha”.
O desejo é, muitas vezes, o que coloca a gente dentro da profissão.
Mas o filme Obsessão me fez pensar no que acontece quando querer deixa de ser suficiente.
Porque existe uma diferença importante entre desejar alguma coisa e acreditar que precisa alcançá-la a qualquer custo e na publicidade essa fronteira pode ser bastante difícil de perceber.
A gente começa querendo fazer um bom trabalho, depois quer fazer o melhor trabalho da equipe, quer ganhar uma concorrência, quer uma campanha premiada, quer reconhecimento, quer o cliente satisfeito, ser promovido e quer ser lembrado.
E, quando percebe, o objetivo já não é mais criar uma boa ideia, é só provar alguma coisa e é aí que a obsessão pode se disfarçar de ambição.
O problema não está em querer muito. Aliás, acho quase impossível trabalhar com criação sem ter esse sentimento. O problema aparece quando o resultado passa a valer mais do que o processo, quando a aprovação vira validação pessoal e quando qualquer “não” parece uma ameaça à nossa capacidade.
Obsessão coloca essa lógica de uma maneira extrema, mas a pergunta que fica é bastante cotidiana: até onde você está disposto a ir para conseguir aquilo que deseja?
Na publicidade, essa pergunta ganha ainda mais peso porque estamos em uma profissão que romantiza um pouco o excesso.
Virar a noite pode ser sinal de comprometimento. Não aceitar uma ideia mediana pode ser visto como excelência. Trabalhar até encontrar “a grande ideia” parece parte do jogo.
Só que existe uma hora em que a busca por fazer melhor começa a cobrar um preço que já não aparece no briefing.
Você deixa de pensar apenas na ideia e começa a pensar no que aquilo diz sobre você. Se for aprovado, você é bom, se for elogiado, você está no caminho certo e se ganhar, finalmente terá a confirmação que estava procurando.
E é aí que a publicidade pode ficar perigosa: quando o trabalho deixa de ser só trabalho e passa a carregar a responsabilidade de dizer quem você é.
Nem toda criação precisa carregar esse peso. Algumas ideias vão ser ótimas, outras vão ser esquecidas. Algumas vão dar certo, outras não. E nenhuma delas, sozinha, deveria ser capaz de definir o tamanho da nossa capacidade.
Continuar desejando faz parte. Querer fazer melhor também. O ponto é conseguir separar o prazer de criar da necessidade de provar alguma coisa.
Porque você pode querer muito alguma coisa sem precisar se perder dentro dela, entender que o desejo pode continuar existindo, mesmo quando você decide que não precisa mais pagar qualquer preço para realizá-lo.
Afinal, querer chegar longe é uma coisa. Fazer da chegada a única medida de que valeu a pena é outra.




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