Para onde foram as distopias que formaram uma geração?
POR: Bia Masch

Com o retorno de Jogos Vorazes aos cinemas, uma pergunta surge: para onde foram os filmes de distopia?
De Jogos Vorazes a Maze Runner, o cinema adolescente dos anos 2010 era recheado de sociedades controladoras, revoluções e dilemas morais. O que aconteceu com essas histórias? Há quanto tempo você não assiste a um filme desses no cinema?
Não estou falando de uma nova temporada de uma série pós-apocalíptica ou de uma produção de ficção científica com um futuro visualmente impressionante. Falo daqueles filmes que chegavam aos cinemas, reuniam adolescentes em filas enormes e faziam todo mundo discutir teorias, personagens, injustiças e dilemas morais. O que aconteceu com esse gênero?
Para quem cresceu entre os anos 2000 e 2015, teve a adolescência marcada por um cinema que apoiava na distopia a linguagem perfeita para falar sobre o futuro e, indiretamente, sobre o presente. Jogos Vorazes, Maze Runner, Divergente, O Doador de Memórias e tantos outros títulos apresentavam mundos em que a liberdade era controlada, a sociedade era dividida por classes, e sobreviver significava, muitas vezes, questionar as regras.
Esses filmes tinham algo em comum: seus protagonistas eram jovens colocados diante de sistemas muito maiores do que eles. É claro que essas produções eram, antes de tudo, entretenimento. Tinham romances, ação, protagonistas carismáticos e reviravoltas pensadas para surpreender o público. Mas era justamente por meio desses elementos que questões complexas chegavam a uma parcela de espectadores que talvez ainda não tiveram contato com debates fora da ficção.
A distopia transformava problemas abstratos em experiências concretas. Como seria viver em uma sociedade em que o governo decide quem pode prosperar? Até que ponto seguir ordens significa abrir mão da própria consciência? O que acontece quando a segurança é usada como justificativa para retirar direitos?
Essas perguntas não ficavam necessariamente restritas à sala de cinema. Elas apareciam em discussões na escola, em fóruns na internet, em vídeos no YouTube e nas conversas entre amigos. Não só isso, como muitos dos livros que deram origem a essas obras passaram a ocupar um lugar de referência em redações para vestibulares, trazendo comparativos e estendendo as críticas da ficção para os debates do mundo real
E então, aos poucos, esse movimento pareceu perder força.
O ciclo de grandes franquias adolescentes de distopia foi se encerrando. Jogos Vorazes concluiu sua saga original em 2015. Divergente não conseguiu finalizar sua história no cinema, e Maze Runner terminou sua trilogia cinematográfica em 2018. Outros projetos não alcançaram o mesmo impacto ou simplesmente não encontraram espaço para se desenvolver. O gênero não desapareceu por completo, mas deixou de ocupar o lugar de destaque que havia conquistado no cinema.
Ficou uma sensação de ausência.
Em um momento em que a comunicação é cada vez mais rápida, em que opiniões são reduzidas a poucos segundos de vídeo e em que algoritmos selecionam boa parte do conteúdo que consumimos, narrativas que exigem tempo e envolvimento parecem especialmente valiosas. Não porque os jovens de hoje sejam necessariamente mais superficiais, mas porque o ambiente em que constroem suas referências é diferente.
Talvez o que faça falta não seja a distopia em si, mas a experiência coletiva que ela proporcionava: o pensamento crítico ao reconhecer nas telas questões extremamente relevantes, que construíam jovens mais engajados e atentos a debates importantes. A pergunta mais interessante não é apenas por que as distopias desapareceram do cinema adolescente, mas por que deixamos de ver tantas histórias que nos convidavam a imaginar futuros terríveis para entender melhor o presente?
E, principalmente: será que o cinema voltará a criar um movimento capaz de fazer os jovens não apenas assistir a um filme, mas discutir o mundo que existe do lado de fora da tela?




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